A identidade e a sua construção – nas sendas da filosofia, ciências humanas e cultura.

Carlos Cariacás

Doutor em Ciências da Religião (PUC-SP)

Professor da UNINOVE e tutor da ESAB

cariacas@hotmail.com

RESUMO

O presente ensaio aborda o conceito identidade pelas vias de sua construção mediada numa perspectiva filosófico-histórico-cultural.  É um repasse, na perspectiva de um estudo anaminético, de como se dá a identidade em relação com o outro.

Palavra-chaves: identidade, cultura, ciências humanas, filosofia.

I – Nas bordas.

Nada mais necessário e convencional do que iniciar um estudo temático do que usar o auxílio do dicionário que, sobre o termo identidade, assim o conhecido Aurélio (2000) reza: “Identidade sf. 1. Qualidade de idêntico. 2. Os caracteres próprios e exclusivos duma pessoa: nome, idade, estado, profissão, sexo, etc”.

No entanto, pouco ou quase nada esta definição caberia neste ensaio. Por outro lado à definição de identificação no mesmo dicionário é iluminador ao referir-se ao “ato ou efeito de indentificar-se; reconhecimento duma coisa ou dum indivíduo com os próprios (Aurélio, 2000, 371)”. E melhor ainda é o conceito de identificar – nele encontramos ressonância de condições que nos servem para as linhas futuras – que (no tópico 4 da explicação) diz: “Perceber afinidades, ou compartilhar sentimentos ou idéias com alguém”.

II – O percurso histórico-filosófico.

Desta forma, falar em identidade é referir-se ao processo de como ela se constrói – que se dá em meio à identificação. Partindo da premissa de que alguém só é na medida em que se encontra com outro ocasionando, destarte naquele que se constrói e se torna, marca para a elaboração do seu eu (dado em contato de admiração, repulsa ou negociação com os aspectos do outro).

No Vocabulário de Psicanálise de Laplanche & Pontalis (1967) identificação é tido como um

Processo psíquico pelo qual uma pessoa assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo de outra e transforma-se total ou parcialmente a partir deste modelo. A personalidade se constrói e se diferencia por meio de uma série de identificações.

Não é a toa que os antigos gregos ao tramitarem pelo que hoje discutimos como construção de identidade a vislumbravam (se é que podemos afirmar assim) pelo processo educativo que se dava com a preocupação de formar o cidadão livre em conexão com os interesses e a glória da cidade. Toda a dimensão grega de ética e espiritualidade tramitava neste campo. [1] Sobre esta questão Jackeline Russ (1999) ao abordar os princípios basilares que embasam a discussão ética no ocidente recorda que os mesmos foram forjados no clima das preocupações das mais variadas épocas. Nesta direção há, na modernidade, um resgate dos antigos princípios que se perenizaram – como é o caso da ética do cuidado de si revigorada pelo trabalho genealógico de Michel Foucalt. Russ, comentando no que consiste a preocupação inerente a este principio (disposto em anamnese no trabalho de Foucalt), escreve:

O belo e o bom estão inextrincavelmente unidos, como no-lo indica a expressão grega, “Kalonkagathon” – o belo e o bom – que exprime a fusão dos valores estéticos e do bem (…) progredindo até a Idéia do Belo, o homem se eleva acima de sua condição terrestre, descobre o mundo das essências e se acha, assim, em condições de chegar a uma sabedoria (RUSS, 1999, p. 51-52).

O próprio Aristóteles em sua concepção celebre expõe a sua comunhão com o pensar de sua época ao dizer que não existe cidade virtuosa sem cidadãos virtuosos. Na Antiguidade, portanto, a tônica do que hoje chamamos de identidade era dado em meio às preocupações do constituir-se enquanto homem por intermédio da identidade coletiva da cidade. Deste modo, ser homem era ser cidadão de uma cidade. Tanto é assim que a idéia que os gregos tinham de herói era a de um homem que se arriscava em largar a sua cidade e a proteção de seus deuses e partir para o mundo desconhecido voltando, após um tempo, de forma grandiosa. Isto era heroísmo: desagregar-se da cidade e de seus deuses e costumes e conseguir vencer o desconhecido voltando ao convívio dos seus de modo resplandecente aos olhos de todos.

As práticas sexuais – ainda hoje constituídas em tabu – eram no período grego um elemento constitutivo da dinâmica construtiva da identidade helênica (FOUCAULT, 1984, p. 20)

No medieval, com o avanço e consolidação da fé cristã a noção de identidade é transportada para a cidade de Deus e não mais dos homens.

O cristianismo, vale recordar, foi na Antiguidade da velha Europa a religião que se propagou sem definir-se por categoria regional ou étnica. Teve a proeza de reunir em suas marcas o que havia de excluído: escravos, mulheres, crianças, estrangeiros,… Constituindo-se como um campo de acolhida para os que, de alguma forma social, se encontravam nas margens da vida. Sabemos hoje que o diferencial da constituição cristã na Antiguidade não se deveu ao seu “discurso inovador”– como hoje é apregoado nos cursos de Teologia – exemplificado pela igualdade, vida eterna, ressurreição, etc., muitas religiões já pregava tais acordes (basta recordar a beleza e operancia da Religião dos Mistérios). O Cristianismo prosperou, dentre tantos fatores, em meio a uma conjuntura favorável desperta no âmbito dos interesses do estado imperial romano que, assim como os cristãos que se diziam ortodoxos[2], almejavam a universalidade de sua extensão e domínio no mundo – dando assim uma completude aos interesses de ambas as instituições (vale dizer: uma comunhão perfeita).

Conforme dito, o cristianismo deslocou a imagem de cidadania em sua regência humana para a divina (vide o taumaturgo Agostinho de Hipona). E este deslocamento realizado de modo sutil e combativo (possivelmente mais combativo do que sutil em dados períodos) registrou no cartório do tempo a identidade humana dos medievos. Vale recordar a obra de Jeffrey Richards intitulada Sexo, desvio e danação(1993) que analisa historicamente como a Igreja empreendeu, a partir do século X, o perfil da identidade dos homens ocidentais resumidos nos atributos do ser cristão, sadio e heterossexual. Desta maneira todos aqueles que não se encaixavam neste perfil eram excluídos como foi o caso dos judeus, mouros, bruxas (por não serem cristãos); os leprosos (que eram segregados na floresta por não serem sadios) e homossexuais (que não tinham o mesmo apreço e apetite sexual capaz de procriar – aspecto tão caro à fé cristã marcadamente heterossexual).  A arte do discurso acerca da identidade impulsionou o ocidente a pensar a vida neste mundo tendo em vista o celeste. A cidadania que valia era a divina e tudo que contra ela demandasse não seriam bem-vindas.

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[1] Cf. Michel Foucalt. História da sexualidade Vol. II
[1] Fazendo jus a existência dos cristãos gnósticos.

O advento moderno, dado em meio à estética e ética burguesa, gerou um novo perfil de identidade. Não mais regido pela preocupação com a cidade, não mais considerando o desidério da glória que aconteceria junto a Deus, mas na busca e manutenção da própria individualidade. A burguesia tatuou na alma do ocidental um olhar sobre si mesmo distinto dos outros períodos históricos. E para este trabalho a orientação do pensamento burguês deslocou o imaginário (dado em meio às luzes dos franceses, da academia…) para captar outros movimentos distintos daqueles anteriormente apregoados como, por exemplo, o bem-viver, o prazer, o pensar de forma autônoma dos interesses da Igreja (vale completar honestamente: porém, não autônomos em relação a nova onda burguesa) e, sobretudo, consumir (afinal, toda a identidade tem um preço)!

Sobre este recente primórdio Martins (1999, p. 10) recorda:

As reflexões sobre identidade se multiplicaram à medida que a importância da individualidade é trazida pelas transformações sociais da Idade Moderna. A forma capitalista de conceber o homem e as relações sociais, atinge a arte através do Romantismo e é a partir daí que se valoriza o tema.  Na filosofia, uma das características atribuídas ao pensamento metafísico pelo materialismo histórico e dialético é opção pela identidade e pela imobilidade das coisas. Daí a conseqüente percepção fragmentária, isolacionista, estabelecendo divisões permanentes e intransponíveis entre as coisas, de forma que os contrários se tornam opostos irredutíveis. Essa percepção metafísica atinge ainda hoje os campos teórico-metodológicos que estudam a identidade.

Entretanto, cada vez mais no contemporâneo é ponto pacífico afirmar que a identidade não é algo em essência. As pessoas manifestam identidades que são movimentos em acidentes (resgatando Aristóteles). E cada um gera a sua identidade numa trama de negociação realizada entre o real individual (desejado, pensado) e o ideal coletivo (imposto; que quer se impor) (ANDRADE, 2007,p. 2). E o caminho desta trama é, sem dúvida, a constante negociação.

Esta negociação passa tanto pelo viés do individual – num trajeto de identidade para si – quanto na construção de um perfil de identidade movido pela orientação social. Por este viés torna-se imprescindível o olhar da psicologia social, inicialmente, acerca do processo de construção da identidade no tangente a negociação de identidades coletivas. Donde

Identidade social é (…) entendida e operacionalizada na acepção de um conjunto de marcas sociais que se posicionam um sujeito em um determinado mundo social. Não se trata de uma concepção que se baseie numa substância reificada, composta de marcas sociais estáticas (…) (HEILBORN apud BUSIN,2008, p. 50)

Individualmente cada pessoa ao procurar construir sua singularidade parte da negociação com a singularidade coletiva. E a sua própria só será possível se levar em conta esta última. Desta forma, os indivíduos tendem a se apropriar das condições formadas pelo imaginário coletivo acerca do que vem a ser o homem. Esta apropriação tende a dar-se em meio aos interesses do indivíduo que procurar unir o que lhe é caro (desejos, impulsos existenciais, etc.) com o coletivo – forjado os papeis sociais. A psicologia social explica que a opção da profissão, por exemplo, reflete muito da busca do indivíduo em construir a sua identidade sem entrar em choque direto com a sociedade. Desta forma muitos que optam pela escolha da vida militar (soldados, policiais) podem ter em si a vontade de subjugar, de reprimir, etc., situações estas que não seriam possíveis de acontecer em uma sociedade pautada por valores humanitários. No entanto, esta mesma sociedade precisa de indivíduos que se encarregam da coerção social. Neste sentido, o ato de subjugar, reprimir, etc. encontra nesta sociedade uma legalidade (mesmo que limitada). E o indivíduo que acalenta tais desejos pode se sentir projetado para a vida militar visto que conseguirá na legalidade realizar os seus desejos sem ferir a sociedade – contribuindo ainda para os interesses da mesma.

Em síntese Busin observa que a construção de sentidos de identidade se dá em meio ao processo lingüístico –via interdiscursividade projetada em redes – incidindo sobre as práticas sociais. Em via conclusiva expõe:

Então, como adverte Bauman, as identidades “flutuam no ar, algumas de nossa própria escolha, mas outras infladas e lançadas pelas pessoas em nossa volta, e é preciso estar em alerta constante para defender as primeiras em relação às últimas (BAUMAN, 2005, p. 19)”.  Para ele, uma identidade fixa, coesa, seria como uma camisa-de-força, uma repressão, pois limita a liberdade de escolha (BUSIN,2008, p. 51).

III- Observações finais

Conforme delineado, a temática da indenidade é vasta. Percorrer de modo extenso foi o propósito deste ensaio que tem por intuito propiciar pontos de reflexão sobre a abrangência da mesma nos mais diversos campos das humanidades.

REFERÊNCIAS

ALVARENGA, Nilson Assunção. Hibridação e identidade cultural: Deus e o diabo na terra do sol 40 anos depois. In http://mnemocine.com.br/cinema/historiatextos/hibridacao_cinemanovo.htm

BUSIN, Valéria Melkin. Homossexualidade, religião e gênero: a influência do catolicismo na construção da auto-imagem de gays e lésbicas. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: mestrado em Ciências da religião, 2008.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade – o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal, 1984.

LAPLANCHE, J; PONTALIS, J. –B. Vocabulaire de la Psychanalise. Paris: Hachette, 1967.

MARTINS, Luiz Carlos. A identidade dos Ribeirinhos do Lago Acajatuba – uma perspectiva discursiva. Manaus: Mestrado em Letras – Universidade Federal do Amazonas, 1999.

RUSS, Jacqueline. Pensamento ético contemporâneo. 2ª. Ed. São Paulo: Paulus, 1999.


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