Sá, Rodrix e Guarabyra: muito além do Rock rural

Thiago Hausner de Macedo

Mestrando em Historia (PUC-SP);

thihm@hotmail.com)

RESUMO:

Este trabalho originou-se com o intuito de situar a importância do trio musical Sá, Rodrix e Guarabyra na historiografia cultural brasileira do século XXI. Criador do chamado rock rural, o grupo formado na década de 1970 representou em suas canções um Brasil em constantes mudanças em vários campos sociais. Até então são inéditos os estudos acadêmicos que abrangem a influência inegável das canções do trio numa época marcante da música popular brasileira. Este trabalho buscará jogar luz sobre as canções do grupo, estudá-los muito além do rótulo do rock rural, um resgate de uma obra que andou lado a lado com a história social brasileira, um trio que representou o seu tempo em canções que se aproximavam das mudanças observadas pelo clássico estudo de Antonio Candido, Os Parceiros do Rio Bonito, um estudo que colocava no centro das discussões acadêmicas um Brasil esquecido, o Brasil do interior, assim com as canções do trio Sá, Rodrix e Guarabyra.

Palavras chave: Historia e Musica; MPB; hibridismo

Dentro dos sub-gêneros que a chamada MPB abraçava, acontecia no ínicio da década de 1970 um movimento muito peculiar, que ganhou a denominação de rock rural, movimento este que Sá, Rodrix e Guarabyra pareciam bem se enquadrar. O rock rural, encabeçado pelo trio, possuia alguns outros conjuntos de destaque, como O Terço, Flyng Banana e O Som Imaginário (que contava com Zé Rodrix), um marco sonoro até então inexplorado no Brasil, seja pela mistura musical do “Sertão e Nova Yorque”[1], ou pelo som globalizado balizado por guitarras elétricas e influências timbrísticas da música americana (Crosby, Still, Nash & Young[2] e Bob Dylan – autoridades musicais da mistura entre rock, folk e country)

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[1] Alusão a canção “Ziriguidum Tchan”, LP Vamos Por Aí, 1990. Sá e Guarabyra. Os versos cantam a distância que separa Nova Yorque e o sertão; a primeira chega a ser mais próxima ao Brasil pelo vôo de avião, enquanto o sertão está esquecido, distante da nossa realidade. São dois mundos, duas culturas que não se cruzam, como bem referem os versos:“John nunca se encontra com João/ Eles não se interessam/ Eles não se conversam/ / Nova Yorque é mais perto que o Sertão”.

[2] Ao invés do nome fantasia usualmente adotado pelos grupos musicais, Crosby, Still, Nash e Young usaram os sobrenomes para compor o nome da formação. Sá, Rodrix e Guarabyra adotarem seus sobrenomes como marca do grupo por não querer

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Este estudo pretende delimitar essa vertente da música brasileira, porém, não apenas debruçar na mera definição de rock rural; Dentro do próprio grupo há divergências sobre a importância dessa denominação. Guarabyra é indiferente, já Sá, a rechaça[3]. Ir além desta simples definição é uma das balizas sustentadoras dessa pesquisa, seja através de entrevistas com o grupo, seja por uma análise minuciosa das canções do trio e da história que como sabemos, anda lado a lado com a música.

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[3] GUARABYRA, Gutemberg. Gutemberg Guarabyra para Encontro de Escritas, Encontro de Escritas, abril de 2002. Entrevista concedida a Silvana Guimarães.
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Delimito o estudo a essa vertente da música brasileira, porém, não apenas debruçar na mera definição de rock rural. A temática do grupo se faz presente nas letras simples, mas nunca simplórias. Há no trabalho do grupo um evidente amor à terra e à natureza. Através dos discos e das entrevistas tentarei evidenciar essas características na dissertação. Ligada a esse amor pelo interior brasileiro, existe a experiência musical trazida pelo grupo, enriquecido com os recursos das várias experiências sonoras, que passam desde o rock n’roll e o folk americano até o xote nordestino que ganhara notoriedade no Brasil principalmente com o músico Luiz Gonzaga. Há a necessidade da compreensão das canções de Sá, Rodrix e Guarabyra no meio acadêmico. Não apenas pela ótica do sub-gênero rock rural, classificá-los assim, seria enfraquecer a importância do grupo num Brasil que enfrentava mudanças cruciais no campo da política e na sociedade. Nessa dissertação estarei atento em um estudo voltado para as questões que o trio depositou em suas músicas: Brasil interiorano em constante transformação, o cuidado com as questões ambientais, a valorização pela forma simples de viver, claro, tudo isso sem perder o bom humor, marca característica do grupo, o que ficará claro nas andanças e shows pelo Brasil e pelas letras irreverentes e mistura de sons nas músicas.

Para o adiantamento da produção da pesquisa, foram realizadas no primeiro semestre de 2010 algumas entrevistas com pessoas ligadas ao grupo. Fiz uso de estudos sobre história oral, com os rigores e pormenores necessários para a boa execução das entrevistas (que percebi na introdução que recebi da profa. Maria Izilda dos Santos Matos, tanto no primeiro quanto no segundo semestre de mestrado, para a leitura de nomes chave do gênero, como Portelli[4]).

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[4] PORTELLI, Alessandro. Tentando aprender um pouquinho. Algumas reflexões sobre a ética na história oral. Revista Projeto Historia 15, São Paulo: EDUC, 1997.

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Pontuo agora os itens relacionados aos objetivos já realizados e por realizar:

. A apresentação do trabalho na Semana Acadêmica da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo abriu caminho para a explanação do tema no âmbito acadêmico, além de proporcionar uma discussão sobre a temática da música popular brasileira na historiografia.

. Neste 1º semestre de 2010 apresentei o trabalho com as fontes para a disciplina Nucleo de Pesquisa. Através dos apontamentos dos mestrandos e da professora foi possível verificar novos soslaios para os apontamentos.

. Identifiquei no 2º semestre de 2009 a produção historiográfica nas esferas social e política dentro do Brasil no período que compreende o governo militar, com ênfase no lastro desse regime no campo social e musical. Aproveitei principalmente o Seminário Temático do cuso de mestrado da PUC/SP: História Social. Política e Econômica da Ditadura Militar: 1964-1985 e História Social, Cultural e Artística da Ditadura Militar: 1964-1985.

. Abordei neste 1º semestre de 2010 outros olhares sobre a historiografia e história da música popular brasileira, explorando novas leituras sobre esta. A leitura de Marcelo Ridenti, José Roberto Zan e Marcos Napolitano serão enfatizadas. Pude descubrir também com as novas leituras outros autores de importância para o trabalho, como Maria Amelia Garcia, que faz amplo trabalho de pesquisa historia da música no sertão.

.   Depois de identificar na historiografia musical, a importância dos músicos Sá, Rodrix e Guarabyra. Camparei dados que comprovem essa avaliação, pois até aqui pouco se relaciona em relação ao trio e o período em que fazem parte.

. Aproximei, na produção musical de artistas nacionais, aqueles que se enquadrem na temática proposta pelo trio. Agora, pretendo fazer um diálogo mostrando a aproximação entre as obras desses artistas e a obra do trio. Neste semestre pude relacionar alguns grupos que fazem jus a essa aproximação: como Som Nosso de Cada Dia, Sagrado Coração da Terra e mais recentemente Zé Helder e Matuto Moderno.

. Compreendi o termo rock rural e a sua ligação com o trio, abordando-o com um olhar indutivo.

. Contextualizei historicamente as canções de Sá, Rodrix e Guarabyra, assim como sua representação na sociedade brasileira; discuti as canções do trio além do rock rural, como elemento renovador da temática musical da época.

.   Continuo fazendo o estudo das canções do trio sem reduzir o trabalho a análise de letras, atento a não reduzir a canção. Seguindo os passos de Carlo Ginzburg que crítica o excessivo apego apenas às fontes escritas como documento, afunilando seu campo de significações. Neste semestre, fiz uma profusa audição dos discos Presente Passado e Futuro (1973), Pirão de Peixe com Pimenta (1977), que são discos chave para essa pesquisa. Além de debruçar sobre mais duas obras de grande valor para a carreira da dupla: Cadernos de Viagem (1975) e Quatro (1979).

.           Visto o item anterior, pode-se notar que a uma ampliação do recorte histórico, e explico agora o porquê: os dois discos citados acima, Cadernos de Viagem e Quatro, carregam elementos tácitos para a compreensão do contexto social brasileiro e as preocupações de Sá e Guarabyra. Enquanto o disco de 1975 explora a temática sertaneja nas viagens de Sá e Guarabyra. O disco posterior é uma ode a defesa da natureza, da boa exploração da fauna, não caindo na planfetagem barata de muitos hippies da época.

. Examinei nas canções do trio as referências explicitas e implícitas aos costumes do homem do campo, mais precisamente os do caipira, representados sob a ótica de Antonio Candido em “Os Parceiros do Rio Bonito”- atentando-se não somente ao estudo de letra, mas também a importância da música e ritmos regionais como representantes dessa cultura.

.   Procuro agora, baseado no item supracitado, melhor conduzir essas referências ao homem do campo, destrinchando essa temática, e encontrando no trabalho elementos de aproximação entre letra e aspectos sociais.

. Agendei para o primeiro semestre de 2010 novas entrevistas com Luiz Carlos Sá e Gutemberg Guarabyra e com pessoas que participaram de certa forma do universo musical e criativo do trio, e através delas pude entender o contexto que eles se inseriam, além de tecer um painel mais seguro sobre o movimento que perpetuaram.

. Abordei essas entrevistas, agora sob a ótica da história oral, com o cuidado em respeitar a fonte, e conduzir a entrevista atentando para os vieses que ela possa sofrer.

.           Com base nessas entrevistas, procuro no terceiro semestre de pesquisa (2º semestre de 2010) dar continuidade ao trabalho, escrevendo sobre o tema,   baseado nessas entrevistas, em matérias dos jornais, e claro, no embasamento teórico conduzido até aqui e o que futuramente surgir.

Começo a escrever agora a introdução junto com o primeiro capítulo da dissertação. Esse processo aplica-se juntamente com a categorização das fontes, compreendendo um estudo mais amplo do universo de pesquisa sob a orientação da professora Dra. Maria Izilda. Separando as diversas temáticas possíveis na trajetória de Sá, Rodrix e Guarabyra.

Através dos questionamentos iniciais, como: existiu mesmo um movimento musical brasileiro denominado “rock rural”? Ou trata-se apenas de mais um rótulo midiático? Sá, Rodrix e Guarabyra são mentores dessa nova forma musical que respirou os anos de chumbo do governo militar? São eles embrião dessa fase da canção popular?, procuro responder essas e inúmeras outras questões com essa dissertação, baseado no minucioso estudo da discografia do grupo, de recortes do corpo de fontes em jornais e entrevistas.

Esses questionamentos são componentes base da problemática constitutiva da dissertação porém, o enfoque principal do trabalho apresenta-se na elucidação sobre a historiografia musical de Sá, Rodrix e Guarabyra dentro de um viés de estudo sociológico, no qual suas canções apontavam para um resgate do Brasil interiorano.

Partindo para de uma perspectiva acadêmica na história e historiografia da canção popular, podemos verificar que a música popular brasileira sempre foi alçada pela mídia, principalmente a televisa, ao patamar de puro entretenimento, e isso afastou, por diversos anos, estudos mais atentos sobre esse gênero cultural.

Mas, recentemente, a aversão contra a chamada “música em escala industrial” deu lugar à percepção de que é extremamente importante haver um resgate da música na história do Brasil. Assim, as canções, junto com seus compositores e executores, tornam-se objeto de estudo e conhecimento. A investigação de artistas e movimentos musicais populares passou a ser valorizado nas Universidades, através de diversos estudiosos, que são usados nessa pesquisa como fonte referencial: Marcos Napolitano, Alberto Ikeda, José Geraldo Vinci. Ampliando essa base de teóricos, o mestrado acadêmico possibilitou conhecer o trabalho de Marcelo Ridenti, que após a leitura deste, verifiquei ser fundamental sua contribuição teórica para o fortalecimento da minha pesquisa. Além do músico e pesquisador Ivan Vilela, referência na área de pesquisa musical.

Partindo do ponto de referências teóricas, o caminho será aberto para o campo específico da área musical, com entrevistas a profissionais ligados a esse meio, inclusive aqueles que aqui são objeto de pesquisa, Sá, Rodrix e Guarabyra, elucidando sobre a temática abordada, procurando um aprofundamento historiográfico do tema proposto. Os já citados anteriormente, o integrante da banda 14bis, Sergio Magrão, o jornalista Toninho Neves, jornalista, Pedrão Baldanza (O Som Nosso de Cada Dia e baixista da dupla), Ricardo Carvalheira, primeiro técnico de som, Tavito (autor com Zé Rodrix da música que ficou marcada pela voz de Elis Regina, Casa no Campo) e Júlia Rodrix.

O crescente estudo da música brasileira por antropólogos, cientistas sociais e historiadores propaga um novo olhar sobre esta, e é nesse ponto que o trabalho ganhou sustentação. Verifiquei que um exame intrínseco desses artistas é possível, recorrendo a comparações com literaturas e biografias de outros músicos contemporâneos e também pela abordagem teórica de obras essenciais para a compreensão do universo, como Os Parceiros do Rio Bonito.[5]

Com a ênfase marxista de Raymond Williams encontrei o alicerce teórico para entender a pesquisa e delimitar os passos da dissertação:

(…) Não se pode entender um projeto artístico ou intelectual sem entender também a sua formação, o diferencial dos estudos de cultura é precisamente que tratam de ambos ao invés de se especializar em um ou em outro. Os estudos de cultura não lidam com uma formação da qual um determinado projeto é um exemplo ilustrativo, nem com um projeto que poderia ser relacionado a uma formação entendida como seu contexto ou pano de fundo. O projeto e a formação nesse sentido são maneiras diferentes de materialização – maneiras diferentes, então de descrição – do que é de fato uma disposição comum de energia e de rumos.” (Williams, p.15)[6]

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[5] CANDIDO, Antonio. Os Parceiros do Rio Bonito. 2 ed. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1971. Estarei atento neste projeto, a faceta que faz da obra de Antonio Candido um clássico: a visão interdisciplinar exposta em Os Parceiros do Rio Bonito. Candido abriu uma nova seara no meio acadêmico ao explorar essa nova visão de pesquisa e o trabalho aqui apresentado fará uso dessas diferentes formas de se pesquisar.

[6] WILLIAMS, Raymond. The Politics of Modernism. London and New York: Verso,

1989. Vale ressaltar que com Williams o estudo cultural passa pelo vivido, pela experiência, o que o contrapõe com os marxistas da escola althusseriana, com quem manteve um diálogo crítico.

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Baseado em suas palavras, foi indubitável atentar para todos os preâmbulos históricos existentes no processo de formação do trio. Para elucidar o estudo d’Os Parceiros do Rio Bonito outro trabalho que norteia o método dessa pesquisa é o estudo a profa. Vera Lucia Vieira[7] fez sobre a influência de Karl Marx na obra de Antonio Candido, que analisa a eleição d poro autor um método de pesquisa pautado no estudo de diversas disciplinas (não tornando a pesquisa algo engessado, reduzindo assim sua temática): “pois para analisar as relações sociais componentes da cultura caipira, foi-lhe necessário incorporar conhecimentos específicos de diversas áreas”. Baseado principalmente em análise da entrevista de Candido a Luiz Carlos Jackson, Vera Lucia verifica na obra Os Parceiros do Rio Bonito um apoio em Marx que “resgata a realidade enquanto objeto de análise de um tema e da percepção social que todo estudo carrega”[8], pois a obra de Marx concentra-se em diversos campos do conhecimento. 41

Busco fazer um minucioso nessa busca pela percepção artística, sem congelar o significado de sua obra. Essa primeira leitura específica apenas das letras das músicas apontaria um universo de significados, porém incompletos, pois é preciso situar o tema dentro do contexto musical e histórico em que estavam inseridos, sempre lembrando que não há apenas um único significado para o tema, e nem esse será esvaziado de historicidade, é o que Certeau combateu como “a crença errônea na transparência significante dos enunciados, fora do processo de enunciação”.[9]

A percepção multifacetada só terá êxito se não implicarmos apenas “no mero ver, no mero ouvir”, pois trata-se de “abstrações dogmáticas que reduzem artificialmente os fenômenos”, posição defendida por Gadamer, em que “a percepção acolhe sempre a significação”[10]. Ou nas palavras de Adalberto Paranhos, “uma notação ou um signo musical não equivale a uma peça fria apropriada de forma neutra pelos sujeitos que a lêem”.[11]

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[7] VIEIRA, Vera Lucia. “A presença de Marx na obra Os parceiros do Rio Bonito de Antonio Candido”. Segundo Vera Lucia há um emprego da obra de Marx não raras vezes como método, ou paradigma em trabalhos acadêmicos, uma distorção que Marx recusava em seus próprios estudos, uma visão que aproxima e delimita sua obra sob ótica stanilista, com cunho quase sempre exclusivamente político.

[8] VIEIRA, Vera Lucia. op. cit.

[9] CERTEAU, Michel de, A Invenção do Cotidiano. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1994. p.338

[10] GADAMER, Hans-George. Verdad y método: fundamentos de uma hermenêutica filosófica. 4. ed. Salamanca: Sigueme, 1991, p. 132 e 133.

[11] PARANHOS, Adalberto. A música popular e a dança dos sentidos: distintas faces do mesmo Art Cultura, nº 9, Uberlândia, Edufu, jul-dez./2004.

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Outro elemento norteador do tema é o público. Desempenhando um papel catalisador, não se restringe apenas a ser o receptor da canção, pois bem sabemos, e já foi dito aqui, o tema precisa ser abordado dentro de um contexto histórico social, e o público é parte desse movimento histórico, Então, é óbvio que a análise da estrutura interna das canções deve ser observada pelo olhar experimental desse público. Como a música popular foge da mira elitista da Escola de Frankfurt e do estruturalismo althusseriano, em que privilegia a audição de uma “minoria esclarecida de intelectuais”, distintos da massa, concebidas como estúpidas e obtusas. Vale lembrar que E. P. Thompson liquida essa hegemonia estática em suas teses, ou na percepção pertinente de José Geraldo Vinci: “a canção é uma expressão artística que contém um forte poder de comunicação, principalmente quando se difunde pelo universo urbano, alcançando ampla dimensão da realidade social”.

No resgate aos discursos, práticas e projetos destoantes, como a obra de Sá, Rodrix e Guarabyra, surge a ideia do “direito ao passado”[12], proposta por Maria Célia Poli. É desse direito que se oxigena a história musical brasileira, com novas informações e significações sobre o trio.

A dissertação não pode estar congelada no tempo, mas sim mergulhada neste tempo[13], e é nessa premissa que essa pesquisa se debruçará. Essas formas de interpretação da realidade aparecem, segundo Vera Lucia Vieira, da “necessidade de analisar as particularidades históricas em suas especificidades, buscando entender sua lógica interna”[14]. Devido à amplidão de temas recorrentes na obra de Sá, Rodrix e Guarabyra, e o fato deles próprios serem parte de um tempo de mudanças sociais importantes no Brasil, faz dessas ‘particularidades’ fonte riquíssima de estudo.

A importância nos estudos de um meio musical que privilegia, de certa forma, a visão camponesa do brasileiro, é crucial para a valorização dessa fração populacional. Mesmo estudos sobre o próprio trio Sá, Rodrix e Guarabyra não se tem registros, é o que a pesquisadora Maria Amélia Alencar alegou:

O fenômeno musical ocorre de diversas formas e compreende, além do som, idéias e comportamentos. Ele é vivenciado e entendido dentro de uma grande margem de significados. Por que, então, especialmente em um país como o Brasil cujas matrizes sonoras são as mais diversas, privilegiar um tipo de música e uma matriz em detrimento de outras(…) Trata-se apenas de alargar as fronteiras e vislumbrar a pluralidade de sons, estilos e movimentos.” (Alencar, p.156)[15]

Essa possibilidade de novos estudos na música brasileira é algo recente e amplia de maneira significativa os campos de estudo. Esse processo apontará meios originais de se estudar a própria sociedade, no caso específico deste trabalho, a sociedade camponesa brasileira e suas rápidas transformações após a década de 1950.

As mudanças nos padrões musicais constituem indícios importantes dos rumos da mudança de uma sociedade e as alterações nos repertórios e na escuta são igualmente reveladores das formas de construção da identidade. (Alencar, p.157)[16]

Dentro do campo da história oral a pesquisa utiliza de fontes ligadas ao grupo, e entrevistas com os próprios músicos. Para essas entrevistas, fiz a leitura de autores que abrangessem os questionamentos necessários para a prática da história oral pautada no respeito ao entrevistado.

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[14] VIEIRA, Vera Lucia. op. cit.

[15] ALENCAR, Maria Amélia; PEDREIRA, F; RIOS, S;  FERNANDES, A; Música, sociabilidade e memória. Sociedade e cultura. Vol. 11. N.2, 2008.

[16]  ALENCAR, Maria Amélia. op cit.

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Na revista da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, Projeto História de número 15 um amplo dossiê abrangeu o estudo da história oral, contando com um artigo do italiano Alessandro Portelli, referência no assunto. Dentre as articulações está a percepção do passado como algo contínuo, não algo engessado e que apresenta um processo histórico em andamento. A partir dessa constatação Portelli aprofunda os questionamentos em torno da passível falta de objetividade e da subjetividade criada pela entrevistas orais.

Aos poucos, entretanto, também estamos questionando o próprio significado da objetividade e da verdade, e transformando a pretensa interferência de um corpo estranho na identidade de nosso trabalho. A Historia Oral não mais trata de fatos que transcendem a interferência da subjetividade; A História Oral trata da subjetividade, memória, discurso e diálogo. (Portelli, p.26)[17]

Outra percepção pertinente com as leituras do semestre foi que a defesa pelo bom uso da história oral vai além do respeito à fonte. Respeita-se a fonte também no que condiz com seu direito à identidade. Na apresentação do livro organizado pela editora Fiocruz, Marieta de Moraes Ferreira atenta para essa problemática.

A memória não é apenas ideológica, mitológica e não confiável, e sim um instrumento de luta para conquistar a igualdade social e garantir o direito às identidades”. (Ferreira, p.13)[18]

Voltando a Portelli, percebo na história oral, um novo patamar, o de dar voz aos personagens da margem, a procurar nessas fontes uma história poucas vezes contada, mas que mesmo assim faz-se necessária e urgente:

Desejamos ouvir aqueles que não foram ouvidos – as pessoas comuns, os trabalhadores, os pobre, os marginalizados, os homossexuais, os negros, as mulheres, os colonizados. Em nossa área de atuação, a voz de todos esses indivíduos, isolados e obscuros – e, sem exceção, muito especiais -, é igualmente importante e necessária.” (Portelli, p.18)[19]

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[17] PORTELLI, Alessandro. Tentando aprender um pouquinho. Algumas reflexões sobre a ética na história oral. Revista Projeto Historia 15, São Paulo: EDUC, 1997.

[18] FERREIRA, Marieta de Moraes (org.). História oral: desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2000.

[19] PORTELLI, Alessandro. op. cit.

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Procuro a partir de agora atrelar os ensinamentos de Portelli as minhas fontes de pesquisa. Numa confluência com a obra de Sá, Rodrix e Guarabyra percebe-se em suas próprias composições a voz do interior amparada por letras que contam o seu cotidiano, suas angústias e transformações.

Por último, e não menos importante, absorvo os pensamentos de Portelli no discernimento da importância do bom cuidado com o material retirado das fontes.

Nesse contexto, compromisso com a honestidade significa, para mim respeito pessoal por aqueles com quem trabalhamos, bem como respeito intelectual pelo material que conseguimos. (Portelli, p.15)[20]

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[20] PORTELLI, Alessandro. op. cit.

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Dentro das atividades realizadas, destaco o processo de sistematização e classificação do corpo de fontes da pesquisa. O processo ajudou na organização do trabalho, através do subsídio intelectual da professora Maria Izilda.

Os temas foram separados em um índice tema/cor (rock rural, período militar, retrato do Brasil, gravações/discos, campo/cidade, Sá, Rodrix e Guarabyra e vida de música). Esses temas ajudaram a melhor delimitar os capítulos que apresento posteriormente neste relatório através do Sumário.

A análise dos discos de Sá, Rodrix e Guarabyra já se iniciou. Neste primeiro semestre, analisei todas as 12 canções do disco Passado, Presente, Futuro. O reencontro com as canções ajuda a entender o contexto histórico estudado dentro das principais temáticas exploradas pelo grupo, e também como o trio se inseria na história musical do Brasil da época. Fica evidente a identidade com o Brasil interior e em desenvolvimento e as preocupações com as questões ambientais que começavam a ser suscitadas na década de 1970.

Agora parto para o estudo e a sistematização dos outros discos, terminando no sexto disco, Quatro, feito já como dupla Sá e Guarabyra no fim da década de 1970, recorte que utilizei para delimitar minha pesquisa.

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