A organização textual da opinião em crônicas do cotidiano

Rodrigo Leite da Silva (PUC-SP / UNINOVE-SP)[1]

O presente trabalho está fundamentado na Linguística de Texto e em bases teóricas da vertente sócio-cognitiva da Análise Crítica do Discurso. Assim, apresenta o esquema textual da estrutura argumentativa, proposto por Van Dijk (1978), com o objetivo de demonstrar o processo de construção textual da opinião em crônicas jornalísticas que tratam do cotidiano. O cotidiano define-se pelo que acontece, diariamente, implicando uma sequência de ações usuais, que se definem como acontecimentos diários. As ações apresentadas pelos cronistas do cotidiano, para seus leitores, sucedem no eixo narrativo. Tais apresentações compõem o Marco de Cognições Sociais, visto que decorrem, a partir de uma seleção temática de uma representação cotidiana. De acordo com o conhecimento do cronista, em relação aos acontecimentos cotidianos, este possui um controle sobre tal conhecimento, ponto de partida para a seleção temática, na composição da crônica. Diante deste contexto, a crônica do cotidiano é organizada, hierarquicamente, pela categoria semântica Usual e pela categoria temporal Frequência. Conforme a categoria semântica apresentada, a crônica do cotidiano revela hábitos cotidianos, que são avaliados pelo cronista do cotidiano, numa projeção, envolvendo uma escala de valores positivos e negativos, pois, tais hábitos se organizam enquanto conhecimentos factuais, localizados no Marco de Cognições Sociais. Portanto, os resultados obtidos indicam que a construção textual da opinião, nas crônicas do cotidiano é orientada pela focalização do cronista, tendo como ponto de partida a focalização do Marco das Cognições Sociais, onde são projetadas hierarquicamente a partir da categoria Conhecido, avaliando as crenças que incorporam o cotidiano e apresentado novas crenças, estas sendo legitimadas pelos argumentos utilizados pelo cronista do cotidiano.

Palavras-Chave: Construção Textual da Opinião; Crônica do cotidiano; Esquemas Textuais; Marco de Cognições Sociais.


[1] Doutorando em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor de Leitura e Produção Textual da Universidade Nove de Julho de São Paulo.

 

1.    A caracterização da crônica

O surgimento da crônica data, aproximadamente, do século XIII, no continente europeu, mais especificamente, na França, tendo como base a historiografia e com o objetivo de registrar as narrativas pessoais, do tipo memorialista. Na Península Ibérica, a crônica adquire a função de organizar os documentos históricos, em ordem cronológica. Mais tarde, com Fernão Lopes, ocorre uma modificação, pois, nela passa-se a inserir suas opiniões pessoais e a relatar o cotidiano do povo português (o trabalho, os comícios, os movimentos populares etc.).

No Brasil, a crônica adquire tipicidade e se torna uma forma representativa da cultura brasileira; inicialmente, surge com a criação da imprensa nacional, no século XIX, se localizando em um espaço livre do jornal, denominado folhetim, com o objetivo de promover a diversão do leitor.

O folhetim classificava-se, em dois tipos:

Folhetim-Romance – textos românticos nacionais e internacionais, publicados em capítulos;

Folhetim-Variedades – textos que tratavam de uma variedade de matérias, registrando e comentando a vida cotidiana da Província, do País e do mundo, em tom superficial, e uma escrita de uso cotidiano de língua, como forma de não aborrecer o leitor.

Atualmente, a crônica brasileira, como é conhecida, tem suas origens no Folhetim Variedades.

Mais tarde, o cronista, objetivando divertir o leitor, por meio de uma livre criação que apresentasse a sua opinião sobre um fato cronológico, ultrapassa fatos cotidianos e passa a tratar de qualquer tema. Os jornais passam a ter jornalistas especializados em temas determinados, que contribuem para a construção dos cadernos específicos, que compõem o jornal.

Na crônica, explica Fávero (2005), opta-se, também, pelo uso do coloquialismo que atrai o interlocutor, por meio de uma linguagem dirigida  aos leitores de jornais que são considerados apressados, pois: “Fingindo-se descompromissado, o cronista (e, portanto, a crônica), está inserido num momento histórico, imprimindo em seu texto marcas de seu tempo, de sua sociedade, revelando sua ótica de ver e sentir o mundo; e ele historia não só esse momento como a própria língua, instrumento do qual se vale.”

Segundo a autora, talvez por isso a crônica seja considerada, por alguns críticos, como um gênero menor.  “Porém, não é dessa forma que os cronistas se vêem”, observa, citando Vinícius de Morais, para quem ‘Como um prosador do cotidiano, a coisa fica mais fina’, e Rubem Braga, que diz que o cronista de jornal ‘é como o cigano que toda noite arma sua tenda e pela manhã a desmancha, e vai’.

Ainda segundo Fávero (2005), analisar uma crônica possibilita uma reflexão acerca da materialidade da língua, assim como a respeito da utilização dessa mesma língua pelo homem e pela sociedade, nas suas interações: “(…) a observação de uma dada regularidade lingüística revela a maneira pela qual o sujeito, inserido numa sociedade, interpreta e expressa aquele momento histórico”.

2. A crônica do cotidiano

Scafuro (1999), ao analisar a tipologia textual das crônicas jornalísticas paulistanas, concluiu que estas se categorizam em crônicas de notícias e de cotidiano; sendo que as crônicas de notícia se diferenciam das crônicas de cotidiano, em que a primeira é definida pelas categorias Inusitado / Atual, pois o cronista comenta fatos noticiosos relevantes, por meio de sua crônica, enquanto a segunda se define pelas categorias Usual /Frequência, na qual comenta-se os hábitos que organizam o cotidiano do povo brasileiro.

A crônica do cotidiano é organizada, hierarquicamente, pela categoria semântica Usual e pela categoria temporal Frequência.

O cotidiano define-se pelo que acontece, diariamente, implicando uma sequência de ações usuais, que se definem como acontecimentos diários. Nesse âmbito, no cotidiano, há o comum, o usual e o habitual.

As ações apresentadas pelos cronistas do cotidiano para seus leitores sucedem no eixo narrativo. Tais apresentações compõem o Marco de Cognições Sociais[1], visto que decorrem, a partir de uma seleção temática de uma representação cotidiana. De acordo com o conhecimento do cronista, em relação aos


[2]  Quando as pessoas têm em comum, objetivos, interesses e propósitos, elas se reúnem em um grupo social constituído de crenças e suas crenças constroem o Marco das Cognições Sociais do grupo.

 acontecimentos cotidianos, este possui um controle sobre tal conhecimento, ponto de partida para a seleção temática, na composição da crônica.

Portanto, o eixo orientador que organiza a seleção do cronista é a categoria semântica Usual, estando ela embricada com as categorias Esperado e Conhecido.

Sendo assim, Scafuro (1999:109), tomando por base os resultados obtidos de pesquisas sobre a organização textual de crônicas publicadas em jornal, afirma que:

Os resultados indicam que, as crônicas do cotidiano podem ser descritas pela mudança aspectiva, ou seja, qualquer fato atual é representado pela frequência no usual do cotidiano. Assim sendo, trata-se da inserção da categoria aspectiva Interativa, por se repetir, diariamente, em Atualidade, o que já era esperado.

Com base na estruturação das categorias que organizam o texto crônica do cotidiano constata-se que as opiniões nele contidas, construídas pelo cronista, contribuem para controlar a formação da opinião de seus leitores, pois, o Marco de Cognições Sociais, base das representações mentais, e ponto de partida deste texto, é usado como argumento nas afirmações nele apresentadas.

Conforme as categorias semânticas apresentadas, a crônica do cotidiano revela hábitos cotidianos, que são avaliados pelo cronista do cotidiano, numa projeção, envolvendo uma escala de valores positivos e negativos, pois, tais hábitos se organizam enquanto conhecimentos factuais, localizados no Marco de Cognições Sociais.

Segundo Scafuro (1999:139), em relação à tematização da crônica do cotidiano:

Poder-se-ia dizer que é categorizada no tempo, na história, do tipo narrativo, remetendo-se, de certa forma, à atualidade do registro do cronista, em relação à sua produção escrita. Talvez, por essa razão, segundo alguns estudiosos da crônica, sua caracterização é o efêmero.

 

3. O texto opinativo

Van Dijk (1997)  afirma que a opinião é definida como forma de representação mental, sendo que a sua aquisição, seus usos e funções são sociais e sua expressão, na maioria das vezes, é discursiva, pois, há muitas opiniões que não são expressas por textos verbais, mas, só pensadas.

A partir dos resultados já obtidos para conceituar opinião, o autor diz que os estudiosos apresentam diferenças existentes, entre episteme e doxa, bem como conhecimentos epistêmicos, de conhecimentos avaliativos. Os epistêmicos são factuais e decorrem do que se constata, ao observar o mundo; por essa razão, pode-se aplicar a este tipo de conhecimento, o critério da verdade/falsidade.

Nesse sentido, ao discutir a diferença entre conhecimentos epistêmicos e avaliativos, van Dijk propõe que todas as formas de conhecimento, por decorrerem da projeção de um ponto de vista, são avaliativas e, portanto, crenças.

Assim, Guimarães (1999:59) afirma:

As opiniões, ao serem construídas pela mente, implicam que termos, inicialmente, de uma representação mental de X que, ao ser interpretada avaliativamente, produz uma opinião sobre X. A representação mental de X é social e está arquivada, após processamento cognitivo, na Memória de Longo Prazo das pessoas; nesse sentido, tal representação resulta de um processo de aquisição do conhecimento de X, a partir de uso e funções que X tem em sociedade. Assim, por exemplo, o conhecimento de Presidente da República já é representado, mentalmente, por uma avaliação de seus atos, em relação à nação presidida por ele; trata-se, portanto, de uma representação construída, a partir de um Marco de Cognições Sociais, que implica saberes e crenças sobre o que seja presidente da nação.

Portanto, é indispensável, que se considere que uma representação mental seja uma forma de conhecimento, ou seja, para que se tenha a ideia de como X é representado socialmente para que, a partir de sua designação, se tenha uma avaliação.

Em se tratando das representações adquiridas e armazenadas socialmente, estas já possuem formas de avaliações sociais.

Assim, por exemplo, se alguém diz “Pedro não é um bom aluno”, este alguém expressou uma opinião, pois, apresentou um julgamento que avalia, negativamente, a atuação de Pedro, como aluno em sala de aula.

Contudo, para que isso seja feito por alguém é indispensável entender que ele já adquiriu uma representação mental do que seja aluno e que esta representação implica juízo de valor para a sua atuação, no papel social de aluno em sala de aula.

Sendo assim, é necessário que se diferenciem as representações mentais adquiridas, pois, estas são organizadas, a partir de um marco das cognições sociais. Este é definido, ideologicamente, como um conjunto de idéias que estabelecem parâmetros avaliativos para as ações dos seres, no mundo real, de acordo com os interesses dos grupos sociais em que estão inseridos.

4.    Estrutura argumentativa proposta por van Dijk (1978)

Segundo van Dijk (1978), o texto-processo é visto como modelo mental, que se define por uma micro-estrutura (conjunto de micro proposições), por uma macro-estrutura (conjunto de macro-proposições, sentidos globais) e uma superestrutura (esquema textual convencionado socialmente).

O autor apresenta a descrição de diferentes superestruturas textuais. Ao tratar da argumentação, o autor nomeia o esquema textual de estrutura argumentativa, pois, tem por pressuposto, que está subjacente a qualquer outra superestrutura, na medida em que não há textos ingênuos.

Como se pode observar, este esquema textual, como qualquer outra superestrutura, é hierárquico e as suas categorias textuais mais altas são a Justificativa e a Conclusão. A conclusão é considerada como julgamento de valor opinativo, podendo ou não ser justificado explicitamente, no texto. Desde que justificado, recorre-se ao Marco das Cognições Sociais e a Circunstância que propiciou a construção da opinião.

Van Dijk verificou, também, que, dependendo do gênero discursivo, a categoria Justificativa pode ou não ocorrer; nos discursos autoritários ela não ocorre. Todavia, os discursos polêmicos privilegiam a categoria Justificativa.

O Marco das Cognições Sociais é grupal e permite reconhecer os membros deste grupo, a partir de representações mentais adquiridas em sociedade e que já são avaliadas, no e pelo grupo social. Por vezes, o Marco das Cognições Sociais pode ser divulgado e adquirido por outros grupos sociais caracterizando o que se designa por opinião pública. Quando uma opinião é justificada, por argumentos, a Circunstância é apresentada pelo ponto de vista do produtor que situa um fato.

4.    Análise da crônica do cotidiano

Nesta seção apresentaremos a análise de uma crônica do cotidiano, publicada no jornal O Estado de São Paulo, de autoria de Luís Fernando Veríssimo, seguindo as categorias descritas a seguir:

5.1.  Texto 1

Organizem-se

Nem sempre é fácil você se autoclassificar.

Fora as categorias óbvias de que faz parte, como gênero – e mesmo assim tem cada vez mais gente com dificuldade para saber a que sexo pertence – as outras são imprecisas. Por exemplo: raça. Eu me considero branco, mas, uma descrição mais honesta do meu mix, que inclui português, alemão, italiano, índio e negro, me obrigaria, a pelo menos, acrescentar um ponto de interrogação à definição. Raça: branco?

Outra definição imprecisa é a da sua classe. Você sabe quando pertence à classe AAA e não tem dúvidas quando pertence à F, mas, todas as outras dependem de gradações sutis, de difícil percepção. Classe B de cima, quase A, ou B de baixo, quase C?Classe C ascendente ou decadente? Classe D, com ou sem parabólica?

Mas você pertence a outras categorias, sem se dar conta. Se não sente nenhuma afinidade especial com pessoas do mesmo sexo, da mesma raça ou da mesma classe, pode descobrir o senso de comunidade, com membros de algumas destas irmandades pouco notadas. Os homens se dividem em duas categorias: os que põem a mão na cintura quando fazem xixi e os que não põem a mão na cintura quando fazem xixi. É inescapável: ou você pertence a uma facção ou a outra. Tente descobrir o que mais une vocês, além da postura mictória. Organizem-se, Reúnam-se.

Poderia haver convenções nacionais de pessoas que dizem “catorze” e de pessoas que dizem “quatorze” e o intercâmbio, talvez até competições esportivas  entre os dois grupos.

O mesmo com pessoas que raspam a manteiga e pessoas que a cortam  em pedaços, comem e não comem a casca do queijo, abotoam a blusa ou a camisa de cima para baixo ou de baixo para cima, preferem sentar, atrás ou na frente do cinema, molham ou não molham o dedo para virar a página do jornal…

Faça o seguinte: classifique-se de acordo com suas idiossincrasias, hábitos, preferências ou esquisitices – e saia à procura de sua turma. Você pode muito bem pertencer a uma categoria que não mostrou sua força porque ainda não se reconheceu, porque ainda não sabe o poder que tem.  Quem pode afirmar que os que só conseguem dormir de meias, ou estalam os dedos, ou comem o figo com a casca, bem organizados, um dia não dominarão o mundo?

(VERÍSSIMO, Luis Fernando. O Estado de S. Paulo. 27 de agosto de 2009. P. D16)

4.1.1.    Quanto à seleção temática:

A seleção temática é feita, a partir de uma representação do cotidiano (Usual), que faz parte do marco das cognições sociais dos brasileiros, em relação ao seu conceito de organização social.

4.1.2. Quanto à focalização e sua estrutura textual:

A crônica do cotidiano é organizada, textualmente, no que se refere à focalização, por uma polaridade, organizando uma estrutura textual que demonstra a focalização em um ângulo relacionado ao marco das cognições sociais e a focalização do cronista.

Nesta crônica, a seleção temática é realizada, a partir do conceito de organização social do brasileiro. A focalização do cronista é dada no momento em que enuncia que não sabemos identificar a que classe pertencemos. O paradoxo é construído pela sucessão de ações, que apresentam quando se afirma que nem sempre é fácil se autoclassificar, pois, a partir dessa dificuldade, nos encontramos sem condições para nos organizarmos em um grupo e constituir uma formação ideológica que nos dê autoridade.

A polaridade das focalizações pode ser demonstrada, pela seguinte visualização:

Estes resultados indicam que as estruturas textuais da comparação propiciam transformar as categorias Esperado/Inesperado, em Usual pela Categoria semântica Conhecido. Nesse sentido, as designações atribuídas ao brasileiro, por não saber identificar-se, mesmo que os critérios estejam relacionados à classe social, gênero ou a que raça pertencem, são Inesperadas tendo como ponto de partida a representação atribuída ao conceito de organização social do brasileiro, na medida em que  o Esperado é a representação de que o brasileiro pertence a uma classe social, que possui características específicas.

5.1.4. Quanto à organização textual da opinião do cronista por argumentos, pode-se observar, de acordo com o esquema textual, proposto por van Dijk (1978):

a.  A categoria Apresentação

A categoria apresentação agrupa as categorias Premissa-Hipótese e Conclusão.

a.1. Premissa: Se os brasileiros não sabem classificar-se, de acordo com suas próprias características, então não possuem uma identidade que os organizem em uma classe social.

a.2. Conclusão: Os brasileiros devem aprender a identificar-se, para que possam reunir-se em uma classe e construir autoridade.

b. A categoria Justificativa:

A categoria Justificativa agrupa as categorias Marco das Cognições Sociais e Circunstância.

b.1. Marco das Cognições Sociais: conceito de organização social do brasileiro.

Existem características óbvias, que são utilizadas para a classificação das pessoas, como gênero, raça, classe social, comportamento etc.; consideradas parâmetro, por órgãos institucionais, por exemplo: IBGE.

b.2. Circunstância: Os brasileiros devem classificar-se, de acordo com suas idiossincrasias, hábitos, preferências e esquisitices para se organizarem em classe social. A circunstância é comprovada, pelos seguintes argumentos:

argumento 1 – a identificação dos brasileiros, em relação à raça:

Fora as categorias óbvias de que faz parte, como gênero – e mesmo assim tem cada vez mais gente com dificuldade para saber a que sexo pertence – as outras são imprecisas. Por exemplo: raça. Eu me considero branco, mas, uma descrição mais honesta do meu mix, que inclui português, alemão, italiano, índio e negro, me obrigaria a, pelo menos, acrescentar um ponto de interrogação à definição. Raça: branco?

argumento 2 -  a identificação dos brasileiros, a partir da classe econômica:

-  Outra definição imprecisa é a da sua classe. Você sabe quando pertence à classe AAA e não tem dúvidas quando pertence à F, mas, todas as outras dependem de gradações sutis, de difícil percepção. Classe B de cima, quase A, ou B de baixo, quase C?Classe C ascendente ou decadente? Classe D, com ou sem parabólica?

argumento 3 -  a identificação dos brasileiros, quanto a outras categorias

Mas você pertence a outras categorias, sem se dar conta. Se não sente nenhuma afinidade especial com pessoas do mesmo sexo, da mesma raça ou da mesma classe, pode descobrir o senso de comunidade, com membros de algumas destas irmandades pouco notadas. Os homens se dividem em duas categorias: os que põem a mão na cintura quando fazem xixi e os que não põem a mão na cintura, quando fazem xixi. É inescapável: ou você pertence a uma facção ou a outra. Tente descobrir o que mais une vocês, além da postura mictória. Organizem-se, Reúnam-se.

argumento 4 -  a identificação dos brasileiros, quanto aos hábitos linguísticos

Poderia haver convenções nacionais de pessoas que dizem “catorze” e de pessoas que dizem “quatorze” e o intercâmbio, talvez, até competições esportivas,  entre os dois grupos.

argumento 5 -  a identificação, quanto aos hábitos diversos

O mesmo com pessoas que raspam a manteiga e pessoas que a cortam, em pedaços, comem e não comem a casca do queijo, abotoam a blusa ou a camisa, de cima para baixo ou de baixo para cima, preferem sentar atrás ou na frente do cinema, molham ou não molham o dedo para virar a página do jornal.

 

 

  1. 4.    Discussões

A crônica do cotidiano é organizada, tematicamente, a partir dos hábitos cotidianos, então o cronista ao construí-la, recorre ao marco das cognições sociais, a partir da categoria Conhecido , com o objetivo de apresentar uma escala valorativa, em que suas avaliações são positivas e negativas, em relação aos conhecimentos factuais apresentados.

No que se refere ao processo de focalização, há uma polaridade indicada pelo marco das cognições sociais X focalização do cronista, caracterizando um Paradoxo. Este é fruto de uma reflexão, em que toma-se consciência, a partir da verificação de crenças do marco das cognições sociais , apresentando uma outra possibilidade.

Em relação à estrutura textual da resolução da categoria Usual verificou-se que a crônica do cotidiano parte do marco das cognições sociais para chegar ao ponto de vista do cronista, sendo assim, notou-se a construção textual da semelhança, a partir da dissemelhança.

Portanto, a construção textual da opinião, nas crônicas do cotidiano é orientada pela focalização do cronista, tendo como ponto de partida a focalização do marco das cognições sociais, onde são projetadas hierarquicamente a partir da categoria Conhecido, avaliando as crenças que incorporam o cotidiano e apresentado novas crenças, estas sendo legitimadas pelos argumentos utilizados pelo cronista do cotidiano.

  1. 5.    Referências bibliográficas

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KOCH, I.G.V. Argumentação e linguagem. São Paulo: Cortez, 3ª. ed., 1993.

MELO, José M. De – Jornalismo opinativo – gêneros opinativos no jornalismo brasileiro. Campos do Jordão: Mantiqueira, 2003.

SCAFURO, Gisele – A Organização textual de crônicas publicadas em jornal. Dissertação de Mestrado. PUC/São Paulo, 1999.

VAN DIJK, T. A.        -  Cognição, discurso e interação. São Paulo, Contexto, 1992.

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